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Amy Winehouse: música que se derrama em psicologia
Há 50 anos morreu Carl Gustav Jung, psiquiatra Suíço, um dos maiores estudiosos da vida interior do homem, fundador da Psicologia Analítica. Há quase um mês morreu Amy Winehouse, uma grande revelação musical dos últimos tempos.
Onde estas duas vidas se cruzam?
Amy Winehouse poetiza Jung
Uma música que se derrama em psicologia
No dia 23 de julho de 2011 o mundo foi notificado da morte de Amy Winehouse. Grande perda. Uma vida que se vai prematuramente. Sob o mito de uma das maiores revelações musicais de nossos dias, encontrava-se simplesmente uma garota tateando o mundo em busca de um grande amor.
A mídia não poupou notícias, vídeos, fotos e comentários de todas as ordens. Este parece ser o preço que pagam os grandes mitos. Foi esta mesma mídia que me colocou em contato com a letra de suas músicas, agora de forma mais atenta, possivelmente numa tentativa de compreender a alma de uma pessoa que me encantou profundamente desde a primeira vez em que a ouvi cantar.
“Stronger Than Me”, o primeiro single lançado por Amy Winehouse em 2003, foi a música que, em especial, me chamou atenção e norteou esta reflexão. ”Você devia ser mais forte que eu. Você não sabe que deveria ser o homem… Por que você sempre me deixa no controle? Tudo de que preciso é que meu homem assuma seu papel (…) Sempre tenho que te confortar, todos os dias. Mas é isso que eu preciso que você faça – você é gay? Esqueci tudo da alegria do amor novo… Me sinto uma dama, mas você é meu garoto”. A poesia, a música, o cinema e a arte em geral são importantes referências para entendermos os fenômenos psíquicos, uma vez que ilustram, nas mais variadas formas, os enredos da vida humana. Assim, parto desta música, por achar que ela revela de modo crucial, um momento psicológico pelo qual passam homens e mulheres em nossos dias. Embora o propósito desta reflexão parta da psicologia da mulher, não me distanciarei dos homens, pois é na dinâmica masculino/feminino, quer seja a que acontece no interior de cada indivíduo, ou no relacionamento com os parceiros amorosos, que encontramos um dos maiores mistérios da natureza humana – tema amplamente aprofundado por Jung em sua teoria psicológica. Segundo Jung, homens e mulheres, independente do sexo, carregam em si um aspecto masculino e outro feminino. A mulher é conscientemente feminina, sua natureza física e instintiva é feminina, mas no inconsciente carrega um par complementar masculino (animus). Importante condição para a conscientização da mulher, a masculinidade feminina vem se fortalecendo ao longo da historia da humanidade, conferindo-lhe assertividade, capacidade crítica, objetividade e o que mais for importante para estabelecer e alcançar suas metas. No homem o fenômeno se inverte, enquanto se move e é movido no mundo pelo masculino, o seu inconsciente é preenchido por uma mulher (anima/alma) sedenta para se expressar e lhe mostrar novas formas de viver, de se relacionar, de lidar com a vida, de se entusiasmar. A palavra entusiasmo vem do grego antigo ethos que significa Deus. Viver entusiasmado é o mesmo que viver animado, esta forma de viver que emerge do universo feminino. Para Jung, é ponto fundamental no amadurecimento da personalidade, a união destas duas instâncias no interior de cada indivíduo, um casamento ou encontro com seus pares interiores. Assim, os homens dariam expressão à sua feminilidade (a anima), tornando-se mais abertos, sensíveis e reflexivos, e as mulheres, passo a passo com os seus homens interiores (animus), colocariam-se no mundo de forma mais objetiva, a serviço da autorrealização. Coniunctio é o termo empregado por Jung para a união da dualidade masculino/feminino afirmando ser esta uma das obras mais complexas e importantes da vida humana. No entanto, não é esta união citada por Jung que nos deparamos no dia a dia da clínica psicológica, e sim um distanciamento ou até mesmo um desconhecimento deste parceiro interior, de seu par complementar, tanto por parte das mulheres como dos homens. E esta parte não vivida vai sempre buscar uma maneira de se expressar, quer seja em projeções sobre os outros, onde as escolhas amorosos ocupam importante lugar, quer seja em atos inconscientes, doenças, compulsões ou perturbações psicológicas.
Por inconsciência de si mesmo, por ignorar suas potencialidades e recursos psíquicos e emocionais, e por não se comprometer com o próprio desenvolvimento e amadurecimento, o indivíduo busca ou projeta no parceiro (a) fora de si, o que poderia encontrar em seu companheiro interior, caso lhe desse valor, reconhecimento e expressão. Os versos de Amy Winehouse retratam muito bem este conflito. A busca do outro, e no outro, da própria felicidade, da sustentação emocional. É assustador como ouvimos pessoas cujas vidas estão diluídas na vida do outro, cuja história encontra-se enterrada na história do outro. Nesta música temos a expressão de uma mulher em busca do amor alegre, que ela refere ter se distanciado ao assumir o controle da relação, e com isto possivelmente assumido também, o controle da vida outro. Controlar a vida de uma pessoa é uma das principais formas de se perder e se distanciar de si mesma, de suas responsabilidades, do autoconhecimento e realização. Ao nos diluirmos na vida do outro, misturamo-nos de forma indiferenciada e comprometemos seriamente a nossa existência.
Em seus sonhos, a mulher busca o amor romântico e protetor de um homem que a conforte e ampare, mas quando olhamos bem de perto, o que vemos com frequência são mulheres que não sabem, não querem ou não desejam abrir mão deste queixoso controle que no fundo preenche a sua vida. Ela não quer ser o lado forte da relação, mas resiste fortemente a abrir mão deste papel. Atribui seu poder à fraqueza e ausência do homem mas o que desconhece é que o que é negligenciado é o seu feminino, que fica sufocado na ação, no poder, nas opiniões inquestionáveis e inflexíveis. Ela vê o homem como ausente e fraco, chega até mesmo a duvidar de sua masculinidade. Como resultado,encontramos mulheres fálicas, masculinizadas, tirânicas, de espírito crítico e agressivo.
Mulheres deprimidas, enfurecidas, adormecidas por remédios, álcool e drogas. Todo este cenário é muito triste sim, mas não podemos virar as costas para ele. Olhar para dentro de nós mesmos resgatando partes inconscientes, potencialidades subdesenvolvidas, imagens perdidas, com responsabilidade e coragem é um recentramento necessário que pode nos libertar para uma vida de maior sentido e significado. Mas…e Amy Winehouse?
Apenas uma mulher que teve a vida interrompida na busca incessante do amor.
Eliane Berenice Frota Luconi – Psicóloga



















